domingo, 3 de maio de 2026

Como surgiu o nome da obra, Vidas Secas, de Graciliano Ramos?

Em 1937, Graciliano Ramos escreveu um conto chamado "Baleia", sobre uma cachorra prestes a ser sacrificada (inspirado em fatos que ele tinha presenciado quando criança no sertão de Pernambuco). Após a publicação e a repercussão, o escritor reuniu esse e outros contos de sua autoria já publicados de forma independente em jornais e revistas, organizando-os entre si e encadeando-os de modo a formar um romance coeso. E assim nasceu "Vidas Secas", lançado em 1938.
Naquele mesmo ano, em resenha sobre o livro publicada no jornal Diário de Notícias, o cronista Rubem Braga acabou criando o conceito de “romance desmontável”: os 13 capítulos que formam a obra podem ser lidos isoladamente, pois dispõem de certa autonomia, apresentando casos particulares da vida no sertão.
A página de rosto da prova tipográfica do romance (foto) estampava ainda o título dos originais que Graciliano tinha enviado à editora: "O Mundo Coberto de Pennas" (o primeiro título escolhido foi "Baleia"). Na biografia “O Velho Graça” (1992), Dênis de Moraes conta que o poeta Augusto Frederico Schmidt sugeriu que o livro se chamasse "Vidas Amargas", e que Daniel Pereira, irmão do editor José Olympio, propôs a troca de "amargas" por "secas". Graciliano se convenceu imediatamente disso, sendo o título anterior usado para nomear o 12º capítulo da obra.

domingo, 26 de abril de 2026

Relato de Paulo Coelho sobre seu interrogatório no DOPS

"28 de maio de 1974: um grupo de homens armados invade meu apartamento. Começam a revirar gavetas e armários – não sei o que estão procurando, sou apenas um compositor de rock. Um deles, mais gentil, pede que os acompanhe “apenas para esclarecer algumas coisas”. O vizinho vê tudo aquilo e avisa minha família, que entra em desespero. Todo mundo sabia o que o Brasil vivia naquele momento, mesmo que nada fosse publicado nos jornais.
Sou levado para o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), fichado e fotografado. Pergunto o que fiz, ele diz que ali quem pergunta são eles. Um tenente me faz umas perguntas tolas, e me deixa ir embora. Oficialmente já não sou mais preso: o governo não é mais responsável por mim. Quando saio, o homem que me levara ao DOPS sugere que tomemos um café juntos. Em seguida, escolhe um táxi e abre gentilmente a porta. Entro e peço para que vá até a casa de meus pais – espero que não saibam o que aconteceu.
No caminho, o táxi é fechado por dois carros; de dentro de um deles sai um homem com uma arma na mão e me puxa para fora. Caio no chão, sinto o cano da arma na minha nuca. Olho um hotel diante de mim e penso: “não posso morrer tão cedo.” Entro em uma espécie de catatonia: não sinto medo, não sinto nada. Conheço as histórias de outros amigos que desapareceram; sou um desaparecido, e minha última visão será a de um hotel. Ele me levanta, me coloca no chão do seu carro, e pede que eu coloque um capuz.
O carro roda por talvez meia hora. Devem estar escolhendo um lugar para me executarem – mas continuo sem sentir nada, estou conformado com meu destino. O carro para. Sou retirado e espancado enquanto ando por aquilo que parece ser um corredor. Grito, mas sei que ninguém está ouvindo, porque eles também estão gritando. Terrorista, dizem. Merece morrer. Está lutando contra seu país. Vai morrer devagar, mas antes vai sofrer muito. Paradoxalmente, meu instinto de sobrevivência começa a retornar aos poucos.
Sou levado para a sala de torturas, com uma soleira. Tropeço na soleira porque não consigo ver nada: peço que não me empurrem, mas recebo um soco pelas costas e caio. Mandam que tire a roupa. Começa o interrogatório com perguntas que não sei responder. Pedem para que delate gente de quem nunca ouvi falar. Dizem que não quero cooperar, jogam água no chão e colocam algo no meus pés, e posso ver por debaixo do capuz que é uma máquina com eletrodos que são fixados nos meus genitais.
Entendo que, além das pancadas que não sei de onde vêm (e portanto não posso nem sequer contrair o corpo para amortecer o impacto), vou começar a levar choques. Eu digo que não precisam fazer isso, confesso o que quiser, assino onde mandarem. Mas eles não se contentam. Então, desesperado, começo a arranhar minha pele, tirar pedaços de mim mesmo. Os torturadores devem ter se assustado quando me veem coberto de sangue; pouco depois me deixam em paz. Dizem que posso tirar o capuz quando escutar a porta bater. Tiro o capuz e vejo que estou em uma sala a prova de som, com marcas de tiros nas paredes. Por isso a soleira.
No dia seguinte, outra sessão de tortura, com as mesmas perguntas. Repito que assino o que desejarem, confesso o que quiserem, apenas me digam o que devo confessar. Eles ignoram meus pedidos. Depois de não sei quanto tempo e quantas sessões (o tempo no inferno não se conta em horas), batem na porta e pedem para que coloque o capuz. O sujeito me pega pelo braço e diz, constrangido: não é minha culpa. Sou levado para uma sala pequena, toda pintada de negro, com um ar-condicionado fortíssimo. Apagam a luz. Só escuridão, frio, e uma sirene que toca sem parar. Começo a enlouquecer, a ter visões de cavalos. Bato na porta da “geladeira” (descobri mais tarde que esse era o nome), mas ninguém abre. Desmaio. Acordo e desmaio várias vezes, e em uma delas penso: melhor apanhar do que ficar aqui dentro.
Quando acordo estou de novo na sala. Luz sempre acesa, sem poder contar dias e noites. Fico ali o que parece uma eternidade. Anos depois, minha irmã me conta que meus pais não dormiam mais; minha mãe chorava o tempo todo, meu pai se trancou em um mutismo e não falava.
Já não sou mais interrogado. Prisão solitária. Um belo dia, alguém joga minhas roupas no chão e pede que eu me vista. Me visto e coloco o capuz. Sou levado até um carro e posto na mala. Giram por um tempo que parece infinito, até que param – vou morrer agora? Mandam-me tirar o capuz e sair da mala. Estou em uma praça com crianças, não sei em que parte do Rio.
Vou para a casa de meus pais. Minha mãe envelheceu, meu pai diz que não devo mais sair na rua. Procuro os amigos, procuro o cantor, e ninguém responde ao meus telefonemas. Estou só: se fui preso devo ter alguma culpa, devem pensar. É arriscado ser visto ao lado de um preso. Saí da prisão mas ela me acompanha. A redenção vem quando duas pessoas que sequer eram próximas de mim me oferecem emprego. Meus pais nunca se recuperaram.
Décadas depois, os arquivos da ditadura são abertos e meu biógrafo consegue todo o material. Pergunto por que fui preso: uma denúncia, ele diz. Quer saber quem o denunciou? Não quero. Não vai mudar o passado.
E são essas décadas de chumbo que o Presidente Jair Bolsonaro – depois de mencionar no Congresso um dos piores torturadores como seu ídolo – quer festejar nesse dia 31 de março."

sábado, 11 de abril de 2026

(Geografia) O Japão vai sumir?

No ano de 2024, o Japão registrou quase um milhão de mortes a mais que nascimentos - a maior queda populacional anual, desde que o governo começou a medir em 1968.
O primeiro-ministro Shigeru Ishiba chama isso de "emergência silenciosa" e promete políticas pró-família, como creche gratuitas e horários de trabalho mais flexíveis.
Mas as medidas, até agora, não surtiram efeito. Custos de vida altos, salários estagnados e uma cultura de trabalho rígida afastam os jovens da ideia de ter filhos.

sábado, 4 de abril de 2026

Foto de Brizola e Darcy, no primeiro carnaval do Sambódromo, 1984, assistem ao desfile na sua obra máxima

 

Brizola e Darcy, no primeiro carnaval do Sambódromo, 1984, assistem ao desfile na sua obra máxima

Aliás, desfile que a "parceira" TV Globo não transmitiu por causa da rixa entre Roberto Marinho e Brizola.

A então novata TV Manchete fez sozinha uma transmissão irretocável e inesquecível.

sábado, 21 de março de 2026

Dadá e os ossos do seu amado, o cangaceiro Corisco

Era Setembro de 1972, Dadá se desloca de Salvador para a cidade de Miguel Calmon, BA, onde estão enterrados os ossos do seu amado.
A cabeça e o braço direito de Corisco que se encontravam em exposição pública no Museu Nina Rodrigues, em Salvador, já haviam sido enterrados, após forte pressão popular e dos familiares dos cangaceiros.
No cemitério da aludida cidade é localizada a sepultura. Os ossos são desenterrados. Sentada em sua cadeira de rodas, Dadá pega um a um, examina-os, e, guarda-os, com muito carinho.
Após recolher todos os ossos do seu ente querido, Dadá se recolhe ao seu quartinho de hotel (pensão), e, durante grande parte da noite, passa a mesma, chorando e, lavando os ossos daquele que foi o seu amado, o cangaceiro Corisco.
Após essa árdua tarefa, no dia seguinte, encontra forças para retornar a Salvador, onde mora, com o seu valioso troféu.

sábado, 14 de março de 2026

Otto von Bismarck, o "Chanceler de Ferro"

Otto von Bismarck foi um estadista e diplomata alemão do século XIX, conhecido como o principal responsável pela unificação da Alemanha. Nascido em 1815, ele se tornou o primeiro chanceler do Império Alemão e ganhou o apelido de “Chanceler de Ferro” por sua política firme e estratégica.
Bismarck governou a Alemanha entre 1871 e 1890 e ficou marcado por sua habilidade política e pela chamada Realpolitik, uma forma pragmática de conduzir o poder baseada em interesses e resultados práticos. Suas decisões moldaram a política europeia por décadas.