Em 15 de maio de 1948, a edição do jornal "O Estado de S. Paulo" retratou um momento importantíssimo da história: a fundação do Estado de Israel. A matéria de capa, "Solenemente proclamada na Palestina a República de Israel", documenta o evento sob a ótica da sua importância para o povo judeu, mas, simultaneamente, expõe um fato que até hoje precisamos relembrar devido aos inúmeros negacionismos de seus apologistas: a criação de Israel não ocorreu em um vácuo territorial ou demográfico. Pelo contrário, o jornal demonstra que Israel foi estabelecido em uma terra já densamente povoada e com uma estrutura social preexistente, isto é, a Palestina.
A própria cartografia apresentada na primeira página é uma prova disso, ao delinear a partilha proposta pela ONU e informar as populações de então: o "Estado Árabe" teria 804.000 árabes e 10.000 judeus, enquanto o "Estado Judeu" conteria 397.000 árabes e 538.000 judeus. Esses números, publicados à época, evidenciam que a terra era habitada por ambos os povos e que a fundação de Israel implicaria a imposição de um novo poder estatal sobre centenas de milhares de árabes que ali viviam, estabelecendo o cenário para a tragédia que os palestinos viriam a chamar de Nakba, ou "a Catástrofe".
A Nakba, que foi a expulsão e o êxodo forçado do povo palestino, emerge nas entrelinhas e em notícias explícitas da cobertura do jornal. O "Estado de S. Paulo" reporta a reação imediata dos países vizinhos como uma invasão, uma consequência direta da proclamação unilateral. A ordem do governo egípcio para que suas tropas entrassem na Palestina é noticiada, sinalizando o início da guerra que selaria o destino de centenas de milhares de civis até nossos dias, quase oitenta anos depois.
O jornal documenta o cessar do Mandato Britânico com a partida do último alto comissário, Sir Alan Cunningham, um evento que simboliza o vácuo de poder e a entrega do território a um futuro incerto (e, infelizmente, violento). A retirada britânica, descrita como tendo ocorrido "exatamente ás 10 horas e 8 minutos da manhã de hoje", oficializou o fim de uma era, mas, na prática, deu sinal verde para o início do conflito armado generalizado, no qual a população civil árabe seria a mais vulnerável, apanhada entre as novas forças israelenses e os exércitos árabes, até então submersos pelo colonialismo britânico e que agora viam um novo “protetorado” das potências ocidentais se instalar praticamente em seu quintal.
O Estado de São Paulo relata o início imediato das hostilidades, com notícias sobre a "luta em Jerusalem", descrevendo os confrontos entre as forças da Haganá, a principal organização paramilitar judaica, e os combatentes árabes. A menção de que a luta se tornou "decisiva ao meio-dia" ilustra a rapidez com que a violência escalou, transformando centros urbanos em campos de batalha e prenunciando a destruição de comunidades e a fuga de seus habitantes em busca de segurança.
A publicação noticia, sob o título "Aldeias conquistadas pelos judeus", a tomada de territórios e cidades, como os arredores de Acre e a queda de Jafa. Para os palestinos, essas conquistas militares representaram a perda de seus lares, terras e modos de vida, que perdura até hoje. A nota sobre as forças da Haganá estarem reforçando suas posições na zona de Nahriya, por exemplo, aponta para a consolidação militar que forçou o deslocamento de populações locais, um padrão que se repetiria em toda a Palestina e ainda vemos em curso em pleno 2025 com figuras tenebrosas como Daniella Weiss.
O jornal reportou ainda o despovoamento de localidades árabes. Em uma nota intitulada "Posições abandonadas pelos árabes", afirma-se que os moradores árabes de Safed, uma cidade com significativa população árabe, e de aldeias vizinhas, abandonaram suas casas. Embora o texto não detalhe as causas desse abandono, ele é um registro contemporâneo, quase “ao vivo”, do início do êxodo palestino, a própria essência da Nakba, onde centenas de milhares de pessoas foram forçadas a fugir de suas casas devido ao avanço da guerra e ao temor de massacres.
A declaração de lei marcial em países árabes vizinhos, como Egito, Iraque e no território libanês, é outra faceta da catástrofe que só havia começado a cair sobre o povo palestino. Essas medidas de emergência, noticiadas pelo jornal, refletem a grave crise regional desencadeada pela proclamação de Israel e o início da guerra. Para os palestinos que buscavam refúgio nesses países, a lei marcial significava restrições, incerteza e a vida em um estado de exceção que, para muitos, se tornaria permanente.
Indo além, a cobertura sobre o reconhecimento imediato do novo Estado pelos Estados Unidos e pela Guatemala revela a escala geopolítica do evento e alianças que se manteriam relevantes pelos oitenta anos que se seguiriam. Enquanto a proclamação era celebrada por uns, para os árabes palestinos e os Estados árabes no geral, esse rápido reconhecimento internacional, especialmente por parte de uma grande potência como os EUA (que havia acabado de sair vitorioso de uma guerra mundial), significava a legitimação de sua expulsão.
A própria declaração de independência de Israel, cujo conteúdo é parcialmente descrito no jornal, é apresentada como um documento que promete liberdade e igualdade. No entanto, o texto que "proclama o estabelecimento do Estado Judaico [...] a ser chamado 'Republica de Israel'" foi, na prática, o marco zero da Nakba e de diversos outros massacres e êxodos posteriores.
Para os árabes que viviam dentro das fronteiras do novo Estado, a promessa de igualdade contrastava com a realidade de se tornarem uma minoria em uma nação que se definia como judaica, e para aqueles que fugiram ou foram expulsos, a declaração significou a perda de sua pátria. É bom lembrar que, para muitos, Israel é um verdadeiro Estado de Apartheid, tendo isso sido afirmado inclusive por militantes que sobreviveram ao “Apartheid original” na África do Sul, como o arcebispo Desmond Tutu.
Por fim, o apelo da Haganá aos árabes para que se alistem em suas fileiras, noticiado em Tel Aviv, pode ser interpretado de múltiplas formas, mas no contexto da Nakba, soa como um ultimato. A nota "Apelo da 'Haganah'" que conclama os árabes a se unirem para repelir uma "invasão árabe" evidencia a complexa e trágica situação em que os palestinos se encontravam: pressionados a escolher um lado em uma guerra que, em última análise, resultaria na destruição de sua sociedade e na perda de seu território, independentemente de quem vencesse.
O resultado é o que vemos hoje: um povo sem moradia, sem perspectiva de futuro, sem o direito de reagir – sob pena de ser considerado terrorista e ser massacrado com mais intensidade – e bombardeado e dizimado diariamente. O mais triste e indignante, contudo, é perceber que absolutamente tudo isso teria sido facilmente previsto (e até evitado) por qualquer observador contemporâneo de boa vontade.
Referência: Estado de São Paulo: O ESTADO DE S. PAULO: PÁGINAS DA EDIÇÃO DE 15 DE Maio DE 1948 - PAG. 1.












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