sábado, 23 de maio de 2026

Brasil após o contato com os europeus

1500 – Ocorre a chegada dos portugueses ao Brasil, liderados por Pedro Álvares Cabral. Com eles aportando em, atualmente, Porto Seguro, na Bahia. Inicialmente, chamaram o território de Ilha de Vera Cruz, depois Terra de Santa Cruz, Terra do Brasil, até ter o nome que conhecemos hoje em dia.

Essa fase é tratada de pré-colonial-colonial, já que não há uma colonização de fato, até 1534. Era mais usado como entreposto comercial e comercialização do pau-brasil.

1527 – Passam a chamar o território colonizado por Portugal nas Américas de Brasil. 

1530 – Martim Afonso de Sousa, desembarca no Brasil.

1532 – Martim Afonso de Sousa funda a primeira cidade, São Vicente, que fica atualmente em São Paulo. 

1534 – A colonização acontece de fato, com a criação das Capitanias Hereditárias, divisão de lotes de terras a capitães donatários, que as protegeriam de invasores de outros países e piratas. Inicialmente com grande produção e extração de: açúcar (séculos XVI e XVII), ouro (século XVIII)


1548 – É criado o Sistema de Governo Geral, para organizar a administração colonial. Seu primeiro governador foi Tomé de Sousa, que recebeu de Portugal um conjunto de leis a serem seguidas pela colônia.

1549 – Salvador, na atual Bahia, se torna a primeira capital do Brasil, até 1763. 

1550 – A partir desse ano, o governo português trouxe escravos africanos, para o Brasil. Especialmente para o plantio e produção de açúcar. 

1580 – Portugal e todas as suas colônias estiveram sob o domínio da Espanha. E isso continuou até 1640. Esse período é conhecido como Unificação ou União Ibérica.

1614 - Tibira foi a primeira vítima fatal documentada da homofobia no Brasil, por sua orientação sexual.

1624 – Os holandeses tentam invadir o Brasil, na região de Salvador. Mas logo foram expulsos. 

1637 – Conquista dos holandeses, invadindo o território pernambucano, e contando com a chegada do governante Maurício de Nassau. Estendendo esse domínio por boa parte do Nordeste. Recife foi muito urbanizada, saneada e pavimentada nesse período.

1644 – O governo de Maurício de Nassau termina.

1654 – Os holandeses são expulsos do território nordestino. 

1695 – Padres jesuítas conhecem e se espantam com a sociedade, quase democrática, dos indígenas Tabajara. Pois nessa tribo, era formado uma espécie de parlamento. Ainda assim, são depreciados pelos mesmos, forçando sua religião nos locais.

1763 – Devido a mudança na economia brasileira, antes baseada no açúcar, e a partir do século XVIII concentrada no ouro, a capital do Brasil deixa de ser em Salvador para o Rio de Janeiro. 

1775 – Funda-se, onde seria mais tarde o bairro da Liberdade, em São Paulo, o Cemitério Público dos Aflitos, destinado aos negros escravizados, indígenas pobres, indigentes e condenados a morte.

1779 – Também onde seria o bairro da Liberdade, em São Paulo, foi construída a Capela Nossa Senhora das Almas dos Aflitos. Onde a população excluída poderia velar os seus.


1789 – Ocorre a Conjuração Mineira (antes chamada de Inconfidência Mineira). Surge a figura de Tiradentes nesse período. 

1798 – Ocorre a Conjuração Baiana (antes chamada de Inconfidência Bahiana).

1808 – Chegada da Família Real portuguesa, fugindo de sua terra natal, devido a invasão das tropas napoleônicas e com auxílio da marinha inglesa. De 1808 até 1822, chamamos de Período Joanino. Decretado a Abertura dos Portos as Nações Amigas de Portugal, o que permitia ao Brasil, comercialização com outros países.

1810 – Com o Tratado de Navegação e Comércio, no Brasil, ingleses e portugueses pagariam menos impostos alfandegários que outras nações.

1815 – Dom João VI assina um decreto que eleva o Brasil a condição de Reino Unido a Portugal e Algarves, garantindo maior autonomia administrativa e política para o país.

1817 – A Revolução Pernambucana ocorre devido a grave seca e descaso do governo de Dom João VI. Inicialmente, o que seria apenas uma manifestação, fez os rebeldes controlarem a situação e montarem um governo provisório e republicano. Eles foram despostos e condenados à morte.

1821 – Devido a Revolução Liberal do Porto, Dom João VI volta a Portugal, deixando seu filho, Pedro de Alcântara (Dom Pedro I) como príncipe regente do Brasil.

1822 – Ocorre o famoso grito do Ipiranga, proclamando a Independência do Brasil. Começo do Primeiro Reinado com Dom Pedro I.

1823 – Uma das guerras de independência é no Maranhão, onde a elite tinha relações fortes com autoridades e comerciantes portugueses. Foram necessários o envio de tropas mercenárias e a mobilização de populares para acabar com o domínio português na região

No mesmo ano, ocorre na Província Cisplatina um combate entre militares leais a Portugal e leais ao Brasil. 

Ainda nesse período, ocorreria a Batalha do Jenipapo (Piauí) e independência da Bahia.

1823 – Instala-se uma Assembleia Constituinte, composta por deputados e senadores, que se encarregaria da elaboração da primeira Constituição Brasileira. Quando viu o esboço, que limitava os poderes do Imperador, Dom Pedro I fechou a constituinte, chamando mais tarde, um grupo de sua confiança.

1824 – Dom Pedro I impôs uma nova Constituição. A maior parte do que foi redigido antes pela Constituinte foi mantida, mas a seção que abordava os poderes do imperador foi totalmente alterada.

1825 – Portugal reconhece a independência do Brasil, sendo os ingleses mediadores da negociação para oficialização desse fato. O Brasil aceitou pagar compensações a antiga metrópole e a nação inglesa.

Ainda nesse ano, diante de promessas de maior autonomia, a população da Província Cisplatina se revolta. Liderados por Juan Antonio Lavalleja e Fructuoso Rivera, contra tropas de Dom Pedro I, isso causou a Guerra da Cisplatina, que durou até 1828. A província venceu o conflito e proclamou sua independência, passando a ser conhecida como República Oriental do Uruguai.

1831 – Fim do Primeiro Reinado. Dom Pedro I abdica, vai embora pressionado, tanto por insatisfeitos no Brasil, quando por políticos em Portugal. Dom Pedro II ainda tinha apenas cinco anos de idade. Começa o Período Regencial, no caso da Regência Trina, pois teria três regentes que foi até 1835.

1835 – Até 1840, ocorre a Regência Una, pois um único regente governou o país.

Ocorrem as Rebeliões Regenciais: Cabanagem no Pará (1835 até 1840), Revolta dos Malês na Bahia (1835), Sabinada também na Bahia (1837 até 1838), Balaiada no Maranhão (1838 até 1841), Revolta das Carrancas em Minas Gerais (1833) e a Revolução Farroupilha ou Guerra dos Farrapos no Rio Grande do Sul (1835 até 1845)

1834 – Ocorre a reforma da Constituição de 1834, para tentar combater o Poder Moderador da figura do Imperador, um dos maiores problemas no Primeiro Reinado

1836 – Em Pedra do Reino, em São José do Belmonte, em Pernambuco, surge uma comunidade baseada no sebastianismo, que acreditava no retorno de um rei português que desapareceu misteriosamente. Mas que voltaria, salvando seu povo de todo e qualquer sofrimento. Os membros desse grupo acreditavam que Dom Sebastião estava preso em Pedra Bonita (outro nome para a Pedra do Reino).

E haviam aqueles que profetizavam na volta desse rei, se a pedra fosse lava com sangue. E isso levou a uma série de sacrifícios humanos. As autoridades foram avisadas por um vaqueiro, mas dezenas de pessoas teriam morrido até a chegada dos soldados.

1840 – Começo do Segundo Reinado com Dom Pedro II. Ele é colocado no poder com o golpe da maioridade.

1864 – A Guerra do Paraguai, ou Guerra contra a Tríplice Aliança, foi o maior e mais letal conflito armado ocorrido na América Latina, até onde se sabe. Entre 1864 e 1870, Brasil, Argentina e Uruguai, formando a Tríplice Aliança, guerrearam contra o Paraguai liderado por Solano López.

1888 – Devido a pressão de diversos abolicionistas e mudanças no mundo, ocorre a abolição da escravatura, pela Lei Aurea, assinada pela Princesa Isabel. 

1889 – Proclamação da República por golpe, com liderança do Marechal Deodoro da Fonseca, presidente não eleito na época. Surge a República Velha que será dividida em duas (República da Espada, de 1889 a 1895 e República Oligárquica, de 1895 a 1930).

1893 – Às margens do rio Vaza-Barris, no norte da Bahia, iniciou-se a construção da vila de Canudos, por Antônio Conselheiro. Ela foi feita em uma terra improdutiva, de uma antiga fazenda chamada Belo Monte.

1896 – Como os fazendeiros, políticos e religiosos eram contra a formação do povoado formado por Antônio Conselheiro, ocorreu a Guerra de Canudos. Esse lugar, miraculosamente, sobreviveu a três ataques, mas não aguentou um quarto ataque.


1925 – A Coluna Prestes ou Coluna Miguel Costa-Prestes, foi um movimento revoltoso organizado por tenentistas que percorreu o Brasil entre 1925 e 1927 combatendo as tropas dos governos de Artur Bernardes e Washington Luís durante a Primeira República. Ao longo de sua trajetória, os membros da Coluna percorreram mais de 25 mil quilômetros em protesto contra os governos vigentes.

1930 – Fim da República Velha, mas começo do que chamamos de Era Vargas. Getúlio Vargas assume o poder através de um golpe.

1932 – Ocorre uma revolução, em São Paulo, para exigir uma Assembleia Constituinte e tira Getúlio Vargas do poder. Os paulistas perderam, mas obtiveram uma nova constituição apenas em 1934.

1933 – Com a Assembleia Constituinte formada, também ocorreu a primeira eleição federal em que as mulheres puderam votar e de forma secreta. Mas a votação foi, na verdade, indireta, que elegeu Getúlio Vargas.

1934 – Antonieta de Barros, mulher negra, foi eleita deputada por Santa Catarina.

1937 – Getúlio Vargas diz ter descoberto um suposto plano comunista, para tomar o poder. E ele usa isso como pretexto para não ocorrer as eleições seguintes. Isso foi criado por Vargas, para fazer mais um golpe e manter seu governo. 

Esse período, chamado de Estado Novo, foi uma ditadura, com prisões, torturas, censuras e mortes. Inspirado mesmo pelo fascismo italiano e o nazismo alemão, sistemas de governo que Vargas admirava.  

1947 – Antonieta de Barros é reeleita, e ela luta para instituir no país, de forma mais clara, o Dia do Professor. Apresenta esse projeto em 1948.

1950 – Getúlio Vargas é eleito presidente, através do voto popular. 

1954 – Em agosto desse ano, Carlos Lacerda, um dos principais inimigos de Vargas, é ferido. Getúlio Vargas é tratado como culpado, sendo que nesse caso, não foi.

Em 24 de agosto, ainda nesse ano, Getúlio Vargas comete suicídio e deixa uma carta culpando “poderes maiores”. 

1956 – Juscelino Kubitschek é eleito de 1956 a 1961. Foi marcado pelo nacional-desenvolvimentismo e pela construção de Brasília. Ele foi eleito em um momento conturbado da história brasileira, quando a ameaça de um golpe de Estado, capitaneada pelos militares, era constante. Ficou conhecido por sua política de “50 anos em 5”. 

1960 – Em 21 de abril desse ano, Juscelino Kubitschek, inaugura Brasília, a nova Capital do Brasil.

1963 – O Dia do Professor se torna de âmbito nacional. 

1964 – Ocorre outro golpe militar, o que faz surgir uma Ditadura Militar ou Regime Militar. Os militares assumiram o poder, isso em 1 de abril daquele ano, destituindo o presidente, João Goulart. Esse período, até 1985, foi chamado também, popularmente, de Anos de Chumbo. 

1967 - Jader Figueiredo, um procurador federal, publicou um relatório de 7.000 páginas que catalogou milhares de atrocidades e crimes cometidos contra os povos indígenas, incluindo assassinatos, torturas, prostituição forçada, escravidão e roubos de terra.

1968 – Foi decretado o Ato Institucional 5 (AI-5). Deu ao presidente o direito de promover inúmeras ações arbitrárias e reforçou a censura e a tortura como práticas da ditadura. Além disso, como efeito imediato desse ato: 500 pessoas perderam seus direitos políticos; 5 juízes de instância, 95 deputados e 4 senadores perderam seus mandatos.

1985 – Após o fim do Regime Militar, surge a Nova República. O primeiro presidente seria Tancredo Neves, mas ele morreu antes de assumir. Deixando o poder nas mãos de José, o vice de Tancredo Neves. 

1988 – Feita uma nova Constituição, ainda em vigor até os dias atuais, e que amplia os direitos dos cidadãos brasileiros. 

1989 – Fernando Collor de Mello ganha as eleições para presidente. Consegue a maior inflação mensal da história do Brasil e o roubo das poupanças por todo o país devido ao Plano Collor. Foi o primeiro presidente brasileiro que sofreu um processo de Impeachment. Mas foge, antes de passar para a segunda etapa do processo.

1993 - O Plano Real foi um processo de estabilização econômica iniciado em 1993, e o seu sucesso representou a quebra da espinha dorsal da inflação no Brasil. Apesar de ter ocorrido no governo de Itamar Franco, quem elaborou esse plano foi Fernando Henrique Cardoso, então Ministro da Fazenda.

2002 – A primeira eleição de Luis Inácio “Lula” da Silva. O primeiro presidente não nascido na elite brasileira. 

2016 – Dilma Roussef sofre o processo de Impeachment. Diferente de Collor, ela permanece no cargo até o final dele. Ela estava sendo acusada por pedaladas fiscais, que muitos jornalistas, historiadores e políticos, admitiram que eram pretextos falsos contra a então presidente. 

sábado, 9 de maio de 2026

(História da Música) Um pouco sobre os Heróis da Resistência

Foi uma banda brasileira de Rock formada por Leoni (voz e baixo), Jorge Shy (guitarra), Lulu Martin (teclados) e Alfredo Dias Gomes (bateria) no Rio de Janeiro, em 1986. Após sua tumultuada saída do grupo Kid Abelha, do qual era baixista e o principal compositor, Leoni fundou o grupo, com o qual lançou três LPs, todos pela WEA.
Após a gravação do segundo disco (Religio), houve uma segunda formação da banda não registrada oficialmente com a entrada de Cadu Vasconcellos (bateria e teclados). A terceira formação oficial foi com a entrada do baterista Galli no lugar de Cadu e que passou a formar o grupo ao lado de Leoni e Jorge Shy. O trio foi responsável pela gravação e produção juntamente com Ricardo Garcia do disco Heróis Três (gravado no Nas Nuvens em 1990) e que teve sucessos como "Canção da
Despedida", "Diga Não", "O que Eu Sempre Quis" e "Um Herói que Mata". Os Heróis da Resistência ainda tiveram uma quarta formação após o desligamento do guitarrista fundador Jorge Shy em 1992 com as entradas de Pablo Uranga (guitarra) e Humberto Barros (teclados), porém a banda acabou no fim daquele ano. Os maiores sucessos da banda foram as músicas Dublê de Corpo, Esse Outro Mundo, Só Pro Meu Prazer, Nosferatu, O Que Eu Sempre Quis e Diga Não.

domingo, 3 de maio de 2026

Como surgiu o nome da obra, Vidas Secas, de Graciliano Ramos?

Em 1937, Graciliano Ramos escreveu um conto chamado "Baleia", sobre uma cachorra prestes a ser sacrificada (inspirado em fatos que ele tinha presenciado quando criança no sertão de Pernambuco). Após a publicação e a repercussão, o escritor reuniu esse e outros contos de sua autoria já publicados de forma independente em jornais e revistas, organizando-os entre si e encadeando-os de modo a formar um romance coeso. E assim nasceu "Vidas Secas", lançado em 1938.
Naquele mesmo ano, em resenha sobre o livro publicada no jornal Diário de Notícias, o cronista Rubem Braga acabou criando o conceito de “romance desmontável”: os 13 capítulos que formam a obra podem ser lidos isoladamente, pois dispõem de certa autonomia, apresentando casos particulares da vida no sertão.
A página de rosto da prova tipográfica do romance (foto) estampava ainda o título dos originais que Graciliano tinha enviado à editora: "O Mundo Coberto de Pennas" (o primeiro título escolhido foi "Baleia"). Na biografia “O Velho Graça” (1992), Dênis de Moraes conta que o poeta Augusto Frederico Schmidt sugeriu que o livro se chamasse "Vidas Amargas", e que Daniel Pereira, irmão do editor José Olympio, propôs a troca de "amargas" por "secas". Graciliano se convenceu imediatamente disso, sendo o título anterior usado para nomear o 12º capítulo da obra.

domingo, 26 de abril de 2026

Relato de Paulo Coelho sobre seu interrogatório no DOPS

"28 de maio de 1974: um grupo de homens armados invade meu apartamento. Começam a revirar gavetas e armários – não sei o que estão procurando, sou apenas um compositor de rock. Um deles, mais gentil, pede que os acompanhe “apenas para esclarecer algumas coisas”. O vizinho vê tudo aquilo e avisa minha família, que entra em desespero. Todo mundo sabia o que o Brasil vivia naquele momento, mesmo que nada fosse publicado nos jornais.
Sou levado para o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), fichado e fotografado. Pergunto o que fiz, ele diz que ali quem pergunta são eles. Um tenente me faz umas perguntas tolas, e me deixa ir embora. Oficialmente já não sou mais preso: o governo não é mais responsável por mim. Quando saio, o homem que me levara ao DOPS sugere que tomemos um café juntos. Em seguida, escolhe um táxi e abre gentilmente a porta. Entro e peço para que vá até a casa de meus pais – espero que não saibam o que aconteceu.
No caminho, o táxi é fechado por dois carros; de dentro de um deles sai um homem com uma arma na mão e me puxa para fora. Caio no chão, sinto o cano da arma na minha nuca. Olho um hotel diante de mim e penso: “não posso morrer tão cedo.” Entro em uma espécie de catatonia: não sinto medo, não sinto nada. Conheço as histórias de outros amigos que desapareceram; sou um desaparecido, e minha última visão será a de um hotel. Ele me levanta, me coloca no chão do seu carro, e pede que eu coloque um capuz.
O carro roda por talvez meia hora. Devem estar escolhendo um lugar para me executarem – mas continuo sem sentir nada, estou conformado com meu destino. O carro para. Sou retirado e espancado enquanto ando por aquilo que parece ser um corredor. Grito, mas sei que ninguém está ouvindo, porque eles também estão gritando. Terrorista, dizem. Merece morrer. Está lutando contra seu país. Vai morrer devagar, mas antes vai sofrer muito. Paradoxalmente, meu instinto de sobrevivência começa a retornar aos poucos.
Sou levado para a sala de torturas, com uma soleira. Tropeço na soleira porque não consigo ver nada: peço que não me empurrem, mas recebo um soco pelas costas e caio. Mandam que tire a roupa. Começa o interrogatório com perguntas que não sei responder. Pedem para que delate gente de quem nunca ouvi falar. Dizem que não quero cooperar, jogam água no chão e colocam algo no meus pés, e posso ver por debaixo do capuz que é uma máquina com eletrodos que são fixados nos meus genitais.
Entendo que, além das pancadas que não sei de onde vêm (e portanto não posso nem sequer contrair o corpo para amortecer o impacto), vou começar a levar choques. Eu digo que não precisam fazer isso, confesso o que quiser, assino onde mandarem. Mas eles não se contentam. Então, desesperado, começo a arranhar minha pele, tirar pedaços de mim mesmo. Os torturadores devem ter se assustado quando me veem coberto de sangue; pouco depois me deixam em paz. Dizem que posso tirar o capuz quando escutar a porta bater. Tiro o capuz e vejo que estou em uma sala a prova de som, com marcas de tiros nas paredes. Por isso a soleira.
No dia seguinte, outra sessão de tortura, com as mesmas perguntas. Repito que assino o que desejarem, confesso o que quiserem, apenas me digam o que devo confessar. Eles ignoram meus pedidos. Depois de não sei quanto tempo e quantas sessões (o tempo no inferno não se conta em horas), batem na porta e pedem para que coloque o capuz. O sujeito me pega pelo braço e diz, constrangido: não é minha culpa. Sou levado para uma sala pequena, toda pintada de negro, com um ar-condicionado fortíssimo. Apagam a luz. Só escuridão, frio, e uma sirene que toca sem parar. Começo a enlouquecer, a ter visões de cavalos. Bato na porta da “geladeira” (descobri mais tarde que esse era o nome), mas ninguém abre. Desmaio. Acordo e desmaio várias vezes, e em uma delas penso: melhor apanhar do que ficar aqui dentro.
Quando acordo estou de novo na sala. Luz sempre acesa, sem poder contar dias e noites. Fico ali o que parece uma eternidade. Anos depois, minha irmã me conta que meus pais não dormiam mais; minha mãe chorava o tempo todo, meu pai se trancou em um mutismo e não falava.
Já não sou mais interrogado. Prisão solitária. Um belo dia, alguém joga minhas roupas no chão e pede que eu me vista. Me visto e coloco o capuz. Sou levado até um carro e posto na mala. Giram por um tempo que parece infinito, até que param – vou morrer agora? Mandam-me tirar o capuz e sair da mala. Estou em uma praça com crianças, não sei em que parte do Rio.
Vou para a casa de meus pais. Minha mãe envelheceu, meu pai diz que não devo mais sair na rua. Procuro os amigos, procuro o cantor, e ninguém responde ao meus telefonemas. Estou só: se fui preso devo ter alguma culpa, devem pensar. É arriscado ser visto ao lado de um preso. Saí da prisão mas ela me acompanha. A redenção vem quando duas pessoas que sequer eram próximas de mim me oferecem emprego. Meus pais nunca se recuperaram.
Décadas depois, os arquivos da ditadura são abertos e meu biógrafo consegue todo o material. Pergunto por que fui preso: uma denúncia, ele diz. Quer saber quem o denunciou? Não quero. Não vai mudar o passado.
E são essas décadas de chumbo que o Presidente Jair Bolsonaro – depois de mencionar no Congresso um dos piores torturadores como seu ídolo – quer festejar nesse dia 31 de março."

sábado, 11 de abril de 2026

(Geografia) O Japão vai sumir?

No ano de 2024, o Japão registrou quase um milhão de mortes a mais que nascimentos - a maior queda populacional anual, desde que o governo começou a medir em 1968.
O primeiro-ministro Shigeru Ishiba chama isso de "emergência silenciosa" e promete políticas pró-família, como creche gratuitas e horários de trabalho mais flexíveis.
Mas as medidas, até agora, não surtiram efeito. Custos de vida altos, salários estagnados e uma cultura de trabalho rígida afastam os jovens da ideia de ter filhos.