sábado, 31 de janeiro de 2026

A fundação do Estado de Israel e o crime da Palestina

Em 15 de maio de 1948, a edição do jornal "O Estado de S. Paulo" retratou um momento importantíssimo da história: a fundação do Estado de Israel. A matéria de capa, "Solenemente proclamada na Palestina a República de Israel", documenta o evento sob a ótica da sua importância para o povo judeu, mas, simultaneamente, expõe um fato que até hoje precisamos relembrar devido aos inúmeros negacionismos de seus apologistas: a criação de Israel não ocorreu em um vácuo territorial ou demográfico. Pelo contrário, o jornal demonstra que Israel foi estabelecido em uma terra já densamente povoada e com uma estrutura social preexistente, isto é, a Palestina.
A própria cartografia apresentada na primeira página é uma prova disso, ao delinear a partilha proposta pela ONU e informar as populações de então: o "Estado Árabe" teria 804.000 árabes e 10.000 judeus, enquanto o "Estado Judeu" conteria 397.000 árabes e 538.000 judeus. Esses números, publicados à época, evidenciam que a terra era habitada por ambos os povos e que a fundação de Israel implicaria a imposição de um novo poder estatal sobre centenas de milhares de árabes que ali viviam, estabelecendo o cenário para a tragédia que os palestinos viriam a chamar de Nakba, ou "a Catástrofe".
A Nakba, que foi a expulsão e o êxodo forçado do povo palestino, emerge nas entrelinhas e em notícias explícitas da cobertura do jornal. O "Estado de S. Paulo" reporta a reação imediata dos países vizinhos como uma invasão, uma consequência direta da proclamação unilateral. A ordem do governo egípcio para que suas tropas entrassem na Palestina é noticiada, sinalizando o início da guerra que selaria o destino de centenas de milhares de civis até nossos dias, quase oitenta anos depois.
O jornal documenta o cessar do Mandato Britânico com a partida do último alto comissário, Sir Alan Cunningham, um evento que simboliza o vácuo de poder e a entrega do território a um futuro incerto (e, infelizmente, violento). A retirada britânica, descrita como tendo ocorrido "exatamente ás 10 horas e 8 minutos da manhã de hoje", oficializou o fim de uma era, mas, na prática, deu sinal verde para o início do conflito armado generalizado, no qual a população civil árabe seria a mais vulnerável, apanhada entre as novas forças israelenses e os exércitos árabes, até então submersos pelo colonialismo britânico e que agora viam um novo “protetorado” das potências ocidentais se instalar praticamente em seu quintal.
O Estado de São Paulo relata o início imediato das hostilidades, com notícias sobre a "luta em Jerusalem", descrevendo os confrontos entre as forças da Haganá, a principal organização paramilitar judaica, e os combatentes árabes. A menção de que a luta se tornou "decisiva ao meio-dia" ilustra a rapidez com que a violência escalou, transformando centros urbanos em campos de batalha e prenunciando a destruição de comunidades e a fuga de seus habitantes em busca de segurança.
A publicação noticia, sob o título "Aldeias conquistadas pelos judeus", a tomada de territórios e cidades, como os arredores de Acre e a queda de Jafa. Para os palestinos, essas conquistas militares representaram a perda de seus lares, terras e modos de vida, que perdura até hoje. A nota sobre as forças da Haganá estarem reforçando suas posições na zona de Nahriya, por exemplo, aponta para a consolidação militar que forçou o deslocamento de populações locais, um padrão que se repetiria em toda a Palestina e ainda vemos em curso em pleno 2025 com figuras tenebrosas como Daniella Weiss.
O jornal reportou ainda o despovoamento de localidades árabes. Em uma nota intitulada "Posições abandonadas pelos árabes", afirma-se que os moradores árabes de Safed, uma cidade com significativa população árabe, e de aldeias vizinhas, abandonaram suas casas. Embora o texto não detalhe as causas desse abandono, ele é um registro contemporâneo, quase “ao vivo”, do início do êxodo palestino, a própria essência da Nakba, onde centenas de milhares de pessoas foram forçadas a fugir de suas casas devido ao avanço da guerra e ao temor de massacres.
A declaração de lei marcial em países árabes vizinhos, como Egito, Iraque e no território libanês, é outra faceta da catástrofe que só havia começado a cair sobre o povo palestino. Essas medidas de emergência, noticiadas pelo jornal, refletem a grave crise regional desencadeada pela proclamação de Israel e o início da guerra. Para os palestinos que buscavam refúgio nesses países, a lei marcial significava restrições, incerteza e a vida em um estado de exceção que, para muitos, se tornaria permanente.
Indo além, a cobertura sobre o reconhecimento imediato do novo Estado pelos Estados Unidos e pela Guatemala revela a escala geopolítica do evento e alianças que se manteriam relevantes pelos oitenta anos que se seguiriam. Enquanto a proclamação era celebrada por uns, para os árabes palestinos e os Estados árabes no geral, esse rápido reconhecimento internacional, especialmente por parte de uma grande potência como os EUA (que havia acabado de sair vitorioso de uma guerra mundial), significava a legitimação de sua expulsão.
A própria declaração de independência de Israel, cujo conteúdo é parcialmente descrito no jornal, é apresentada como um documento que promete liberdade e igualdade. No entanto, o texto que "proclama o estabelecimento do Estado Judaico [...] a ser chamado 'Republica de Israel'" foi, na prática, o marco zero da Nakba e de diversos outros massacres e êxodos posteriores.
Para os árabes que viviam dentro das fronteiras do novo Estado, a promessa de igualdade contrastava com a realidade de se tornarem uma minoria em uma nação que se definia como judaica, e para aqueles que fugiram ou foram expulsos, a declaração significou a perda de sua pátria. É bom lembrar que, para muitos, Israel é um verdadeiro Estado de Apartheid, tendo isso sido afirmado inclusive por militantes que sobreviveram ao “Apartheid original” na África do Sul, como o arcebispo Desmond Tutu.
Por fim, o apelo da Haganá aos árabes para que se alistem em suas fileiras, noticiado em Tel Aviv, pode ser interpretado de múltiplas formas, mas no contexto da Nakba, soa como um ultimato. A nota "Apelo da 'Haganah'" que conclama os árabes a se unirem para repelir uma "invasão árabe" evidencia a complexa e trágica situação em que os palestinos se encontravam: pressionados a escolher um lado em uma guerra que, em última análise, resultaria na destruição de sua sociedade e na perda de seu território, independentemente de quem vencesse.
O resultado é o que vemos hoje: um povo sem moradia, sem perspectiva de futuro, sem o direito de reagir – sob pena de ser considerado terrorista e ser massacrado com mais intensidade – e bombardeado e dizimado diariamente. O mais triste e indignante, contudo, é perceber que absolutamente tudo isso teria sido facilmente previsto (e até evitado) por qualquer observador contemporâneo de boa vontade.

Referência: Estado de São Paulo: O ESTADO DE S. PAULO: PÁGINAS DA EDIÇÃO DE 15 DE Maio DE 1948 - PAG. 1.

domingo, 25 de janeiro de 2026

A morte de Soledad Barrett Viedma

No dia 8 de Janeiro de 1973 ocorreu um dos mais brutais crimes políticos cometidos pela ditadura militar no Brasil. Trata-se do monstruoso assassinato da poetisa, intelectual paraguaia Soledad Barrett Viedma, que depois de traída por seu companheiro, infiltrado, Cabo Anselmo, foi cruelmente torturada e morta em Pernambuco. Soledad estava grávida de quatro meses, e mesmo assim não foi poupada. Soledad foi encontrada nua, dentro de um barril numa poça de sangue, tendo aos pés o feto de 4 meses, expelido provavelmente durante as sessões de torturas. Este foi um dos mais hediondos crimes cometidos nos anos de chumbo da Ditadura Militar, no Brasil. Soledad recebeu quatro tiros na cabeça e apresentava marcas de algemas nos pulsos e equimoses no olho direito.



sábado, 10 de janeiro de 2026

Como Interpretar a Pedra do Sol Mexica (ou Asteca)

A Pedra do Sol resume em sua estrutura concêntrica as concepções mexicas de espaço e tempo. Ela indica os quatro pontos cardeais — com o Leste no topo — e marca a sucessão dos 20 dias divinatórios, o ciclo de 52 anos e as cinco eras cosmogônicas”, afirma López Luján, concordando com Alfredo López Austin, pioneiro nos estudos mesoamericanos, que afirmou que a pedra “simboliza as concepções mexicas de tempo; representa o sol, que é o dia, o ‘mês’ de 20 dias, o ano, o período de 52 anos e as eras do mundo”.
Em 17 de dezembro de 1790, a "Pedra do Sol" foi encontrada na Plaza Mayor, um dos monólitos mais antigos preservados da cultura mexica, cuja data de criação remonta a cerca de 1479.
Trata-se de um disco de basalto com inscrições que aludem à cosmogonia mexica e aos cultos solares. Provavelmente era usado para sustentar guerreiros durante a cerimônia de Tlacaxipehualiztli, a cerimônia do meio do mês gregoriano na qual sacrifícios rituais eram realizados. (Nota: A última frase sobre sacrifícios não hispânicos não tem relação com o tema e parece ser um pensamento separado e sem relação com o anterior.) Tais práticas não eram comuns em toda a Europa, e rituais semelhantes eram praticados por druidas, celtas, vikings, romanos e outros povos.
O disco mede 3,60 m de diâmetro, 1,22 m de espessura e pesa 24 toneladas.

Serpentes: Duas serpentes de fogo descendo do Quinto Sol.

Energia solar: O disco solar com símbolos do ano, penas e água.

Um mês de vinte dias: Os vinte signos do dia, equivalentes ao mês asteca.

Círculo das eras anteriores: Vento, Jaguar, Chuva e Água.

Rosto de Tonatiuh: Representa o sol do meio-dia, o Quinto Sol.

sábado, 3 de janeiro de 2026

(História da Música) Deutschland, a música sobre Alemanha de Rammstein

Em março de 2019, Rammstein fez um retorno monumental à cena musical com o lançamento de "Deutschland", um videoclipe cinematográfico provocativo que chamou instantaneamente a atenção mundial. A canção serviu como o primeiro single do seu álbum homônimo, marcando seu primeiro lançamento em uma década. O áudio de "Deutschland" foi meticulosamente gravado nos estúdios La Fabrique, localizados no território do sul da França, enquanto o vídeo surpreendente foi filmado na Alemanha, homenageando suas raízes culturais.
O vídeo "Deutschland", dirigido por Specter Berlin, é uma obra-prima visual que se expande séculos de história alemã, abordando questões de identidade, conflito e legado. Suas imagens ousadas e controversas provocaram discussões intensas em todo o mundo, mostrando a corajosa abordagem da banda para misturar arte, história e comentários sociais. De representações de batalhas medievais a referências ao Holocausto e à exploração espacial, o vídeo encapsula a capacidade de Rammstein de provocar o pensamento enquanto entrega música poderosa.
Musicalmente, "Deutschland" combina o som de metal industrial de Rammstein com elementos eletrônicos, criando uma intensa canção himética. A letra da canção explora a complexa relação entre a banda e sua pátria, refletindo tanto o orgulho quanto a crítica. Esta dualidade é icônica da arte de Rammstein, que muitas vezes desafia as normas sociais e convida a uma reflexão mais profunda.
Gravado em La Fabrique, um estúdio famoso pelas suas instalações de última geração e ambiente sereno, a qualidade de produção de "Deutschland" sublinha o artesanato meticuloso que define a música de Rammstein. O lançamento da música e seu vídeo que o acompanha não só anunciaram o retorno oficial da banda, mas também reafirmaram seu status como um dos atos mais inovadores e influentes do rock e metal moderno. 

sábado, 27 de dezembro de 2025

A mentiras que contam sobre o Carnaval e o Natal

Muita gente repete que o Natal “é coisa de Jesus” e que o Carnaval “vem do diabo” ou de religiões africanas. Isso não é verdade. As duas festas têm origens antigas, europeias e pagãs, criadas por povos brancos muito antes dessas associações modernas.
A verdade sobre o Natal:
O Natal não nasceu com Jesus. Ele surgiu na Europa, ligado a festas pagãs que celebravam o solstício de inverno, quando os dias voltavam a ficar mais longos. Povos europeus comemoravam o retorno do sol e da luz. Séculos depois, a Igreja escolheu essa data para associar ao nascimento de Jesus, facilitando a conversão dos povos.
A origem real do Carnaval:
O Carnaval surgiu na Europa medieval, especialmente em regiões como Alemanha, Itália e França. Ele estava ligado ao início da Quaresma cristã. Antes de 40 dias de jejum e restrições, as pessoas passavam alguns dias comendo, bebendo e festejando. Daí vem o nome “carnaval”: carne vale — “adeus à carne”.
Onde entra a desinformação:
É mentira dizer que o Carnaval veio da África ou de religiões negras, assim como é falso associá-lo ao “diabo”. Essas narrativas foram criadas para atacar culturas negras e espalhar preconceito. Papai Noel não é Jesus, Carnaval não é demoníaco — ambos são tradições europeias que foram ressignificadas ao longo do tempo.
Intolerância religiosa:
No Brasil, o carnaval chegou com os europeus e era uma festa dos ricos. Já os pobres da Bahia e do Rio de Janeiro, principalmente os negros, comemoravam nas ruas e nas favelas. Essas favelas deram origem às escolas de samba e ao axé music. A festa ganhou identidade negra, e parte dos brancos — especialmente alguns religiosos evangélicos —, por racismo e preconceito, passou a associar o carnaval às religiões africanas. Em busca de fiéis, atacam o carnaval e, consequentemente, os negros e suas religiões.

sábado, 20 de dezembro de 2025

A invenção da imprensa por Gutenberg


A invenção da prensa móvel por Johannes Gutenberg, em 1450, marcou um divisor de águas na história da comunicação. Sua técnica permitia imprimir textos rapidamente, com precisão e em grande quantidade, utilizando tipos móveis de metal.


A prensa de Gutenberg transformou a disseminação de conhecimento, democratizando o acesso a informações. Antes, os livros eram copiados à mão, um processo lento e caro. Agora, ideias podiam ser compartilhadas amplamente.


O impacto cultural foi profundo. A prensa impulsionou o Renascimento, difundiu ideias da Reforma Protestante e criou novas oportunidades para escritores. A educação se expandiu, e a comunicação se tornou mais eficaz.


O legado de Gutenberg é imenso. Ele é considerado um dos maiores inventores da história, e sua prensa móvel permanece um marco da inovação. Sua invenção mudou a forma como as pessoas se comunicavam, abrindo caminho para a era moderna da informação.