“Na minha época não existia isso de pessoas trans.” Será mesmo? Há mais de mil anos, muito antes da colonização europeia na Ásia, a Tailândia já reconhecia pessoas que hoje chamaríamos de trans e travestis. A diversidade de gênero não é invenção moderna: ela é histórica e milenar.
Registros culturais do Sudeste Asiático indicam a existência das kathoey ao menos desde o período dos reinos pré-modernos, como Dvaravati (séculos VI–XI) e Lanna e Ayutthaya (séculos XIII–XVIII). Crônicas reais, literatura popular, artes performáticas e iconografia de templos mostram figuras de gênero ambíguo exercendo papéis sociais reconhecidos. O termo kathoey aparece historicamente para designar pessoas atribuídas homens ao nascer que viviam expressões femininas — incluindo mulheres trans e travestis — ocupando um lugar social entendido como “terceiro gênero”, fora do binarismo ocidental.
Antes da influência europeia, as sociedades do Sudeste Asiático apresentavam maior flexibilidade nas normas de gênero, articuladas ao budismo theravada. Diferentemente da moral cristã, o budismo não classificou a diversidade de gênero como pecado. Em leituras populares, a ideia de karma e renascimento explicava corpos dissidentes como parte do ciclo da vida, favorecendo compaixão e tolerância. Esse entendimento religioso foi fundamental para a sobrevivência histórica das kathoey por séculos.
A marginalização se intensifica a partir do século XIX, quando a Tailândia, mesmo sem colonização formal, adota códigos legais, médicos e morais europeus para se adequar ao modelo de Estado moderno. A importação de uma visão binária, biologizante e moralizante de sexo e gênero transformou identidades antes reconhecidas em “desvios”, legitimando discriminação, exclusão do trabalho formal e patologização.
Ainda assim, as kathoey resistiram. Encontraram estratégias no entretenimento, na beleza e no turismo. No século XX, a Tailândia tornou-se referência mundial em cirurgias de afirmação de gênero, atraindo pessoas trans do mundo inteiro, inclusive do Brasil. Influencers como Bella Longuinho e Maya Massafera realizaram cirurgias no país.
A história das kathoey demonstra que a transfobia é um produto colonial, enquanto a diversidade de gênero é milenar — e segue resistindo.

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