sábado, 17 de outubro de 2026

Haiti depois de Baby Doc

Em 7 de fevereiro de 1986 — há 40 anos — Jean-Claude Duvalier, o “Baby Doc” (apelido associado ao de seu pai, François “Papa Doc” Duvalier, e usado para distingui-lo como sucessor jovem da dinastia), fugia do Haiti a bordo de um avião militar americano. Com sua saída, encerrava-se um dos períodos mais sombrios da história do país: quase 3 décadas de ditadura da família Duvalier, marcada por repressão sistemática, violência política, corrupção e o terror imposto pelos Tonton Macoutes (milícia paramilitar criada pelo regime, responsável por assassinatos, desaparecimentos e intimidação da população). A queda de Duvalier não foi apenas a derrubada de um governante, mas o colapso de um regime que havia capturado o Estado haitiano e destruído suas instituições.
Cinco anos depois, em 7 de fevereiro de 1991, há 35 anos, o Haiti parecia virar a página. Jean-Bertrand Aristide ex-padre ligado à Teologia da Libertação, tomava posse como o primeiro presidente democraticamente eleito do país após décadas de autoritarismo. Sua vitória expressiva nas urnas simbolizou a esperança de milhões de haitianos excluídos da vida política e econômica. Pela primeira vez, o poder parecia emanar diretamente das maiorias populares, e não de dinastias, quartéis ou potências externas.
O fato de ambos os marcos ocorrerem no mesmo dia do calendário não é casual. O 7 de fevereiro tornou-se, no Haiti, uma data carregada de significado político — associada à ruptura com o autoritarismo e à tentativa de reconstrução democrática. Ao mesmo tempo, a história posterior mostraria como esse caminho seria frágil: Aristide seria derrubado por um golpe ainda em 1991, retornaria ao poder nos anos 2000 e deixaria um legado profundamente controverso.
40 anos após o fim da ditadura dos Duvalier e 35 anos após a posse de Aristide, o Haiti continua enfrentando desafios existenciais. Hoje, o país vive um colapso total da autoridade estatal: gangues armadas controlam grandes partes da capital e não há presidente eleito. Porém, o 7 de fevereiro permanece como um lembrete crucial de que, mesmo após décadas de opressão, a demanda por participação política e soberania popular jamais desapareceu.

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